Já me arrancaram tudo.
O coração, a casa, o chão.
Deixaram só os ossos.
E mesmo assim, eu fiquei de pé.
Me deram o silêncio como resposta,
e eu escrevi canções com ele.
Me deram o abandono como abraço,
e eu abracei meus filhos com mais força.
Já fui o homem que mendiga afeto.
Hoje sou o que planta presença.
Já fui o tolo que salvava náufragos
em mares que queriam me afogar.
Mas aprendi a nadar sem ajuda.
A andar sem mapa.
A viver sem plateia.
E o que me restou, você pergunta?
Eu.
Inteiro.
Depois de ter sido quebrado mil vezes.
Com a alma costurada por Deus
e os olhos atentos pra não amar errado de novo.
Hoje, minha mesa tem paz.
Meus filhos têm herança:
meu nome limpo, meu suor, meu abraço.
Se um novo amor vier,
vai saber onde pisa.
Vai entender que meu coração não é doente —
é valente.
E quem vier, vai somar.
Ou nem vem.
Porque a pior parte já passou.
E eu sobrevivi ao inferno
sem perder a luz.
Agora, o que me guia
é a chama que ninguém pode apagar:
o propósito.
A missão.
O legado.
E quem não souber amar,
que me veja de longe.
Porque aqui, só entra quem vem pra ficar.
E pra somar.
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