Ela me chamava de amor
com a boca que sorria pra mim
e mordia o ombro de outra.
Ela deitava comigo
mas sonhava com a outra.
E eu acordava cedo
pra fazer café pros três —
ela, a outra e o fantasma do que eu já fui.
Eu dava o mundo.
E ela queria a lua...
mas não a minha,
a de quem chegou depois,
com perfume barato e promessas fáceis.
A pior parte não foi a traição.
Foi ela fingir que ainda era minha
enquanto já era delas.
Foi me olhar nos olhos e pedir paciência,
como se me matar devagar fosse um favor.
Me usou como alicerce pra construir um lar
com outra mulher dentro.
Sim, mulher.
E eu nem sabia
que dava pra perder pra alguém
que nem jogava o mesmo jogo.
Mas eu perdi.
E sabe o pior?
Não foi pra ela. Foi pra mim.
Porque eu soube.
Eu senti.
E fiquei.
Fiquei por medo.
Fiquei por João.
Fiquei por Gabi.
Fiquei pra ver se ela voltava a ser ela.
Mas ela nunca voltou.
Porque nunca foi.
Ela era ausência maquiada.
Era carinho com validade.
Era o "te amo" que escorregava na língua
só pra justificar a próxima ausência.
E quando finalmente fui embora,
não foi ela que me perdeu.
Fui eu que me achei.
Hoje eu sou o silêncio que ela não aguenta.
A paz que ela não consegue alcançar.
E mesmo que ela volte,
não tem mais porta.
Não tem mais chão.
Porque o homem que morava naquela dor,
já se mudou.
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