Eu já caí no abismo de gente vazia,
dei abraço em faca e beijo em mentira,
e achei que era amor.
Já gritei no escuro pedindo um sinal,
pra acordar num mundo menos desigual.
Mas o mundo respondeu com silêncio.
E quando eu quis parar,
desligar,
sumir,
foi a voz do meu filho que me trouxe de volta.
Foi o olhar da minha filha que me chamou de herói,
sem saber que eu só queria ser humano.
Eu sangrei pra ser abrigo,
calejei o coração pra ser colo.
E hoje eu entendo:
o que não me matou, me forjou.
Porque o amor que eu procurei em outros corpos,
já morava no sorriso deles.
O sonho que me abandonaram,
se reconstruiu com as mãozinhas pequenas
que me chamam de pai.
A dor não me possui mais.
Ela me serve.
Ela me molda.
Ela me ensina.
E se ainda escorre lágrima,
não é por quem me deixou,
é por quem ficou.
E por eles —
meu suor,
minha guerra,
meu recomeço.
Porque do lado de cá da dor...
Eu sou casa.
Eu sou chão.
Eu sou pai.
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