Morreu ali.
Num domingo qualquer.
Com a roupa do dia anterior
e a cabeça cheia de planos
que ninguém quis ouvir.
Ninguém levou flores.
Ninguém fez oração.
O corpo ficou em pé, trabalhando,
cuidando dos filhos,
abraçando quem não soube abraçar ele de volta.
Mas por dentro,
já tinha morrido.
Foi um enterro sem despedida.
Sem caixão.
Só mais uma dor deixada no canto do peito,
como um livro lido até a última página
que ninguém quer reler.
Morreu o menino que sonhava em ser pai,
o homem que achava que amar era suficiente,
o burro que acreditou que bastava ser bom
pra não ser traído.
Enterraram ele debaixo dos “eu te amo” vazios,
dos pedidos de paciência,
das promessas feitas no calor da bebida.
E ele aceitou.
Aceitou ser tapa-buraco,
lar temporário,
coração de aluguel.
Mas ninguém percebeu
o dia em que ele parou de sorrir de verdade.
Nem quando ele gravava vídeos,
nem quando ele fazia piada,
nem quando dizia "tá tudo bem".
Porque não tava.
Não tá.
Só ele viu o velório.
Só ele chorou.
Só ele cavou a própria cova
e depois teve que sair dela,
sozinho.
Hoje, ninguém visita aquele túmulo.
Só o eco dos erros.
Só as promessas que não voltaram.
E ele?
Ele vive, mas não respira do mesmo jeito.
Ele ama, mas com máscara de oxigênio.
Ele sonha, mas com as portas trancadas.
Ele virou lenda.
Virou rocha.
Virou o tipo de homem que não precisa mais de ninguém
pra seguir em frente.
Porque quem morre e volta,
não quer mais colo.
Quer céu.
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