quarta-feira, 18 de março de 2026

Da Lareira ao Vulcão

Começou morno… Quase confortável.

Um calor de casa cheia,
de riso fácil na mesa,
de quem acredita que o mundo
é só uma extensão do abraço.

Era fogo de lareira,
daqueles que iluminam o rosto
sem queimar a pele.

Mas ninguém te avisa
que todo fogo cresce em silêncio.

Vieram as rachaduras.
Pequenas primeiro 
um olhar torto,
uma palavra que fere mais do que devia,
um silêncio que pesa mais do que grito.

E você… ficou.
Porque quem constrói, insiste.
Porque quem ama, acredita.

Você virou bombeiro da própria vida,
apagando incêndios
que não foram você quem acendeu.

Até que o chão tremeu.

E o que era lareira
virou vulcão.

Explodiu sem pedir licença,
levando junto:

  • casa

  • paz

  • rotina

  • certezas

E você ficou ali,
no meio da cinza,
tentando entender
como o calor que aquecia
agora queimava até a alma.

Te chamaram de errado.
Te vestiram de vilão.

Mas ninguém viu
as noites em claro,
o peso no peito,
o grito engolido
pra não assustar quem você mais amava.

Ninguém viu você cair…
só cobraram que levantasse.

E você levantou.

Mesmo quebrado.
Mesmo cansado.
Mesmo sem saber se ainda tinha força.

Levantou por quem importa.
Levantou porque desistir
nunca foi opção.

Hoje…
ainda tem fogo.

Mas não é mais o mesmo.

Não é o incêndio que destrói.
É o que forja.

É o fogo de quem passou pelo inferno
e voltou diferente.

Mais duro.
Mais calmo.
Mais consciente.

Você não é mais casa pegando fogo.

Você é o cara que caminha
sobre a lava…
sem se queimar.

Porque agora você sabe:

o calor não te destruiu
ele te transformou em algo
que não quebra fácil nunca mais.

E no meio desse cenário queimado…
onde muita gente veria fim,

você enxerga início.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Foi um enterro... E ninguém apareceu...

Não teve flores.

Não teve discurso.
Não teve abraço.

Só eu.

Eu cavei o buraco.
Eu lavei o corpo.
Eu ajoelhei no chão frio.
Eu chorei sem plateia.
Eu segurei minha própria mão.

Eu fui o morto.
Eu fui o coveiro.
Eu fui a família inteira.

Ninguém viu.
Ninguém se importou.
Ninguém perguntou.

Mas eu vi.
Eu senti.
Eu sobrevivi.

O enterro acabou.
A terra fechou.
O silêncio ficou.

E aquele que saiu dali…
não era mais o mesmo.

Quem enterra a si mesmo
não volta igual.

Volta mais duro.
Mais lúcido.
Mais consciente.

Volta sabendo
que não precisa de plateia
pra renascer.

Eu morri sozinho.
Então eu vou viver por mim.

E dessa vez…
ninguém me enterra mais...