Ela saiu.
Fechou a porta sem nem olhar pra trás.
Levou tudo.
As roupas, os planos, os beijos que prometeu dar no futuro.
Levou até o cheiro dela da casa.
Mas esqueceu uma coisa…
Os filhos.
E eu fiquei.
Fiquei com a dor que ela largou no berço.
Fiquei com o silêncio do quarto sem boa noite.
Com os brinquedos espalhados esperando alguém que nunca volta.
Eu fiquei.
Fiquei pra ensinar a amarrar o cadarço,
mesmo quando meu mundo desamarrava todo dia.
Fiquei pra ouvir dizer “pai, eu tô com medo”,
mesmo quando o medo já tinha me comido por dentro inteiro.
Fiquei quando me chamaram de fraco, de louco, de exagerado.
Fiquei quando ninguém estendeu a mão.
Fiquei quando chorei sozinho no banheiro,
e quando escondi as lágrimas num “tô bem”.
Fiquei quando tudo dizia pra ir.
Quando o coração gritava “acaba com isso, some, desiste”.
Fiquei porque se eu fosse… quem ia ficar por eles?
Ela quis sentir o mundo,
mas esqueceu que o mundo também sente.
E quando o mundo doeu…
ela não tinha pra onde voltar.
Não sobrou nem o colo que ela queimou quando mentiu.
Nem o lar que ela trocou por aventura.
Mas eu…
eu tinha dois motivos pequenos demais pra entender,
mas grandes o suficiente pra me manter de pé.
Eles.
Hoje, quando vejo o João dormindo tranquilo,
ou a Gabi me chamando de herói…
entendo tudo.
Não foi covardia dela.
Foi coragem minha.
Porque ela fugiu…
mas eu fiquei.
E ficar quando todo mundo vai embora…
é o maior ato de amor que existe.
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