Eu quase tive.
Quase tive uma família
daquelas que sentam pra comer
sem medo do silêncio da mesa.
Quase tive uma mulher que me chamava de amor
sem esconder o celular.
Quase tive domingos de paz,
e noites sem precisar adormecer fingindo estar cansado.
Quase tive um lar.
Quase fui prioridade.
Quase fui resposta rápida.
Quase fui o último pensamento antes de dormir.
Mas fui plano B.
Fui companhia de emergência.
Fui o que fazia ela esquecer que amava outro.
Fui pausa.
Nunca play.
Eu quase tive filhos crescendo vendo o amor de verdade,
mas tive que ensinar o João a se proteger com códigos,
porque o mundo que deram pra ele
tava sujo demais pra deixar ele sozinho.
E a Gabi...
Ah, a Gabi merecia me ver sorrindo.
Não só sobrevivendo.
Eu quase me amei.
Quase acreditei que era o bastante.
Quase entendi que o problema nunca foi minha entrega,
mas a mão podre que pegava tudo e jogava fora
como se eu fosse descartável.
E eu?
Eu fiquei.
Sempre fiquei.
Com o peito cheio de cortes,
cobrindo com fita isolante
só pra ninguém perceber que tava sangrando.
Fui o cara que escreveu poemas
pra quem não sabia ler sentimento.
Que vendeu os videogames,
os sonhos,
a liberdade —
pra ganhar um "não sei o que quero da vida"
como resposta.
E eu fiquei.
Até não sobrar mais nada,
nem eu.
Hoje, me pergunto se valeu.
Se valeu ter sido homem demais
num mundo onde isso é fraqueza.
Se valeu morrer por inteiro
por quem só sabia fazer parte
da destruição.
Mas aí eu lembro do João.
Da Gabi.
Do silêncio que agora é paz.
Do prato feito com gosto,
da casa limpa,
do peito leve.
E entendo:
o que eu quase tive, me fez ter tudo o que eu precisava.
Mas doeu.
Ainda dói às vezes.
Principalmente à noite,
quando eu percebo
que ninguém nunca voltou pra buscar o homem que ficou pra trás
esperando por um amor…
que só ele enxergava.
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