quarta-feira, 16 de julho de 2025

O que eu tive... e nunca tive

Eu quase tive.

Quase tive uma família
daquelas que sentam pra comer
sem medo do silêncio da mesa.
Quase tive uma mulher que me chamava de amor
sem esconder o celular.

Quase tive domingos de paz,
e noites sem precisar adormecer fingindo estar cansado.
Quase tive um lar.
Quase fui prioridade.
Quase fui resposta rápida.
Quase fui o último pensamento antes de dormir.

Mas fui plano B.
Fui companhia de emergência.
Fui o que fazia ela esquecer que amava outro.
Fui pausa.
Nunca play.

Eu quase tive filhos crescendo vendo o amor de verdade,
mas tive que ensinar o João a se proteger com códigos,
porque o mundo que deram pra ele
tava sujo demais pra deixar ele sozinho.

E a Gabi...
Ah, a Gabi merecia me ver sorrindo.
Não só sobrevivendo.

Eu quase me amei.

Quase acreditei que era o bastante.
Quase entendi que o problema nunca foi minha entrega,
mas a mão podre que pegava tudo e jogava fora
como se eu fosse descartável.

E eu?
Eu fiquei.
Sempre fiquei.
Com o peito cheio de cortes,
cobrindo com fita isolante
só pra ninguém perceber que tava sangrando.

Fui o cara que escreveu poemas
pra quem não sabia ler sentimento.
Que vendeu os videogames,
os sonhos,
a liberdade —
pra ganhar um "não sei o que quero da vida"
como resposta.

E eu fiquei.

Até não sobrar mais nada,
nem eu.

Hoje, me pergunto se valeu.

Se valeu ter sido homem demais
num mundo onde isso é fraqueza.

Se valeu morrer por inteiro
por quem só sabia fazer parte
da destruição.

Mas aí eu lembro do João.
Da Gabi.
Do silêncio que agora é paz.
Do prato feito com gosto,
da casa limpa,
do peito leve.

E entendo:
o que eu quase tive, me fez ter tudo o que eu precisava.

Mas doeu.
Ainda dói às vezes.
Principalmente à noite,
quando eu percebo
que ninguém nunca voltou pra buscar o homem que ficou pra trás
esperando por um amor…
que só ele enxergava.

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