terça-feira, 17 de junho de 2025

Dona de Tudo

 Ela não sabe.

Mas tudo que escrevo
tem o nome dela escondido entre as linhas.
Mesmo quando falo de amor por outra,
é ela que meu coração soletra por dentro.

As músicas que eu componho,
as palavras que eu falo,
os silêncios que eu carrego…
são dela.
Cada verso, cada vírgula.
Cada suspiro de madrugada
é um grito calado chamando por ela.

Eu acordo com ela na lembrança,
levanto com ela nos ombros,
respiro com ela nos pulmões.
Ela mora no fundo do meu olhar
quando vejo minha filha sorrir,
quando abraço meu filho em silêncio.
Porque eu sei —
nosso tempo tinha limite.
A vida me levou pra outros caminhos,
mas nenhum deles me tirou dela.

Até o amor que eu dou pras pessoas
é o amor que eu queria ter dado pra ela.
O beijo que ofereço em outra boca
é o beijo que guardei, em vão, pra ela.
Ela é o que ficou em mim
depois que o mundo desabou.

Ela é dona da minha arte,
dona da minha dor,
dona da ternura que ainda me resta.
Ela é dona do que eu fui,
do que eu sou,
e até do que nunca vou conseguir ser.

E se um dia houver um depois…
um céu, uma eternidade,
uma chance de reencontro —
que me deixem ver só uma pessoa:
ela.
Porque de tudo que perdi,
de tudo que amei,
de tudo que vivi…
ela é a única que, sem saber,
me fez inteiro.

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Poema de quem morreu e nasceu de novo - Do dia 12 ao dia 13

 Dia 12 de março, o mundo parou.

Uma surpresa cortou meu peito em silêncio.
Minha vida, que já andava no limite,
simplesmente... acabou.

Dia 13, eu me vi esvaziado,
pegando minhas coisas,
levando embora o pouco que sobrou de mim.
Foi o pior dia.
O tipo de dia que a alma grita e ninguém ouve.

Mas Deus ouviu.
Mesmo sem eu saber, Ele já estava escrevendo a resposta.
Enquanto eu caía,
Ele preparava o colo.

E então, três meses depois,
no mesmo dia 12, mas agora de junho,
veio outra surpresa.
Só que dessa vez, ela me devolveu o fôlego.
Me fez sorrir sem perceber,
falar com vontade,
viver com desejo.

E hoje, no dia 13,
eu não me despeço mais da vida.
Hoje eu a celebro.
Porque pela primeira vez em muito tempo,
ela me sorriu de volta.

Mas não, eu não vou postar isso em rede nenhuma.
Não por medo,
mas por proteção.
O que eu estou vivendo não cabe em legenda.
Não precisa de curtida.
Precisa de silêncio.
De cuidado.
De zelo.

Então, se você me ver postando copos, pratos,
flores, músicas...
saiba que no fundo,
é ela quem está lá.
Em tudo.
No pouco.
No tudo.

Hoje, eu me escolho.
Hoje, eu escolho não mostrar,
porque o que é real, a gente vive — não exibe.

E se Deus é por nós...
ah, meu irmão,
quem será contra?

sexta-feira, 6 de junho de 2025

A Peça Que Faltava

 Eu queria te agradecer.

Eu estava num lugar tão escuro, que não enxergava mais nada à minha frente.
Achei que ali seria o fim da minha história.
Mas então... eu vi uma luz se aproximando.
No começo, confesso, eu tive medo.
Mas ela chegou devagar, iluminou tudo ao redor —
e, no meio da bagunça, me devolveu a vida.

Essa luz era você.

Você me deu forças pra me reencontrar.
Me devolveu o sorriso, a paz, e a vontade de continuar.
Por isso, eu te agradeço — com o coração inteiro.

Antes de você, eu estava perdido.
Com você, eu voltei a ser eu.

Obrigado por tudo.
Obrigado por me salvar.

Eu Era Refém e Não Sabia

 Por muito tempo, eu achei que estava em um lugar seguro.

A casa era limpa, o filho saudável, a geladeira cheia, o Wi-Fi funcionando.
Tudo no lugar. Tudo... como ela queria.

Eu me lembro da vez em que pensei em visitar minha mãe. Era o aniversário dela. Já estava até com a sacola pronta, presente embrulhado, ansioso pra vê-la sorrir.
Mas ela achou melhor não. Disse que minha presença podia causar confusão. Que minha mãe tinha energias estranhas.
— Melhor deixar pra outra hora — ela disse.
Nunca teve outra hora.

No mês seguinte, meus primos fizeram uma festa. Eu ri quando vi os vídeos depois, escondido no banheiro. Mas no dia…
Ela achou melhor eu não ir.
— Seus primos têm umas ideias estranhas, vão te encher a cabeça — disse.
E eu fiquei.

Comecei a reparar que os convites foram parando. Os amigos sumiram.
Mas ela dizia:
— Você tem tudo aqui. Eu, seu filho, nossa casa. O que mais você quer?

E eu me convencia. Porque amar também é ceder, né?
Amar é querer agradar.
Amar é entender que o outro só quer te proteger.
Ela só queria o melhor pra mim.
Era o que eu repetia toda noite, enquanto bebia sozinho, olhando a rua pela fresta da cortina.

Um dia, eu descobri. Não foi só uma mensagem. Foi um mundo inteiro escondido atrás de um sorriso que eu jurava ser verdadeiro.
A traição veio como uma faca cega: não cortou de uma vez, foi rasgando devagar.
E eu caí.

Caí tão fundo que pensei que ia morrer.

Mas foi ali que eu acordei.

No começo, só uma sensação estranha nos pulsos. Um incômodo.
Fui ver no espelho, e havia marcas.
Marcas finas, circulares, vermelhas — como se eu tivesse usado algemas por anos.
Nos tornozelos, as mesmas marcas.
No peito, nas costas, pequenos traços de uma tortura que eu nunca percebi sofrer.

Fiquei dias tentando entender. Sem dormir. Sem comer.
Como eu não vi?

Aos poucos, comecei a lembrar das vezes em que quis sair… e não saí.
Das vezes em que quis dizer “não”… e me calei.
Das vezes em que chorei no banho, e me culpei por estar triste.
E entendi.

Eu não estava casado.
Eu estava preso.
E ela era minha cela dourada, meu carcereiro sorridente.

Hoje, eu ando por aí com medo.
Medo de ser livre.
Medo de não saber mais escolher.
De me sentar num bar com amigos e não saber o que dizer.
De visitar minha mãe e não saber como abraçá-la.

Mas, mesmo com o medo, eu tô indo. Um passo por dia.
Porque agora eu vejo que liberdade…
é quando você pode amar sem perder a si mesmo.
É quando você pode sair — e ainda assim querer voltar.
É quando o seu “não” é respeitado… sem que precise virar guerra.

Eu era refém.
E não sabia.

Hoje, sou livre.
E tô aprendendo, devagarinho, a ser feliz.