Eu morri antes de morrer.
E ninguém trouxe flores.
Ninguém chorou.
Ninguém notou.
Morria todo dia, um pouco.
Quando vi meu filho confuso,
me olhando como quem pergunta:
“Cadê aquele pai que sorria?”
Morria quando chamavam de lar
um lugar onde eu era hóspede.
Onde eu doava meu corpo, minha grana, minha alma,
e me entregavam silêncio.
Morria quando a mulher que eu amava
abria a porta pra outro homem,
mas deixava a janela aberta pra mim,
só pra garantir que eu não fosse embora por completo.
Morria quando fingia que tava tudo bem.
Que a traição foi só distração.
Que o abandono foi só fase.
Que o amor ia voltar se eu fosse melhor, mais forte, mais calado.
Eu fui o cara que vendeu os videogames
achando que o preço da família era alto.
Eu fui o cara que dormia no chão
enquanto ela se maquiava pra sair.
E eu dizia "tudo bem",
como se minha dor fosse um detalhe.
Eu doei meus domingos.
Minhas roupas.
Minha saúde.
Doava sorriso quando por dentro só tinha nó.
Fui usado, esquecido, debochado,
até pelo espelho.
E mesmo assim, amanhecia.
Mesmo assim, colocava arroz na panela,
e esperança no peito.
Mas você quer saber quando eu morri de verdade?
Quando eu percebi que ninguém voltava.
Nem ela.
Nem os amigos.
Nem os “eu te amo” que eu disse alto e ninguém devolveu.
Morria mais um pouco cada vez que eu dizia "vai passar",
e só piorava.
Cada vez que alguém me dizia "você é forte",
quando tudo que eu queria era colo.
Hoje, eu sou o que sobrou.
Mas sobrou justo o que era indestrutível:
meu amor pelos meus filhos.
Meu dom.
Minha fé.
E quando alguém me vê sorrindo agora
e diz que estou bem,
eu só abaixo a cabeça e penso:
“Se você soubesse quantos caixões eu enterrei dentro de mim.”
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