quarta-feira, 16 de julho de 2025

Quando Você Feriu Quem Era Meu

Você podia ter me quebrado,

e foi o que fez.
Quebrou meu riso.
Meu peito.
Meu reflexo no espelho.

Me fez duvidar se eu era homem,
ou só uma sombra pedindo colo.

E mesmo assim eu te perdoei.
Mesmo depois das mentiras,
dos olhares desviados,
das promessas que eram iscas.

Eu segui, calado.

Mas quando eu vi ele...
meu menino, com medo nos olhos
com saudade entalada na garganta
com um silêncio que gritava

— eu morri.

Quando eu ouvi ela...
minha menina, tentando entender
porque o colo que gerou
foi o mesmo que sumiu
sem dizer por quê

— eu matei.

Matei você dentro de mim.

E se existe Deus — e eu sei que existe —
Ele também viu.

Viu a mãe que virou nuvem
quando a tempestade chegou.

Viu a mulher que trocou a eternidade por um gozo barato.

Viu o vazio que você deixou
ser preenchido por mim
com histórias, com almoço,
com papel higiênico, com sono leve,
com medo de que o mundo te pareça justo demais
e devolva o que você fez em dobro.

Você podia ter me deixado.
Mas você abandonou eles.

E isso…
isso não tem desculpa.
Não tem volta.
Não tem oração que limpe.

A partir daqui,
meu perdão só cobre a mim mesmo.
Porque deles…
você não merece nem um pensamento.

Tudo menos eles

 Você poderia ter batido mais vezes na minha cara

Poderia ter destruído ainda mais a minha alto estima

Poderia ter pisado mais forte no meu coração

Poderia ter aberto mais e mais machucados nos meus pulsos

Você poderia pintas meu rosto de palhaço tantas vezes que ninguém iria me reconhecer

Você poderia ter roubado todo o ouro do mundo

Todo o sorriso do meu rosto

Toda a fé que eu neguei

Você poderia explodir prédios

Queimar uma floresta ou secar os mares

Você poderia me afogar nas minhas lágrimas e usar meu sangue de tinta

Pra continuar escrevendo as suas mentiras

Você poderia ser o céu ou o inferno, o problema é seu

O que você não deveria ter feito

Foi pintar o medo na mente de uma criança inocente

Entregar mentiras a um coração puro

Enganar o aquele que ficou 9 meses morando dentro dessa casa suja

Abandonar o seu tão dito bem maior, pra se esfregar em outros corpos vazios

Comigo, com o mundo, você poderia ter feito tudo

O seu maior erro foi mexer com eles, porque agora

O seu pecado não tem perdão

Espero que nunca precise de mim

Que nada que venha de mim seja necessário pra sua vida, porque nesse dia

Você vai entender que por ter feito mal aos meus filhos

Eu não tenho pena de te ver caída no chão implorando pra viver

Até porque, quando eles choraram por sua culpa, eu te matei mil vezes dentro de mim

Meus Dois Motivos

Eu tive tudo pra desistir.

E por muitas noites…
Desisti.

Desisti de amar.
Desisti de acreditar.
Desisti de tentar ser entendido
num mundo que só aplaude quem mente sorrindo.

Eu caí.
Na frente de todo mundo.
Com a alma arrastada,
com a dignidade em carne viva.

Mas no chão, ouvi dois passos pequenos…
Dois passos que vinham em minha direção.

João com medo no olhar,
Gabi com força na voz:
"Levanta, pai."

E eu levantei.

Você, que dizia me amar,
me deixou abraçado com o frio,
com as contas vencidas,
com as promessas partidas.

Mas o amor verdadeiro não estava nos seus braços.
Estava nas mãozinhas pequenas que seguravam as minhas
como se o mundo dependesse disso.

E dependia.

Hoje, eu não tenho mais medo de ficar só.
Porque eu nunca estive só.

Quando você saiu batendo a porta,
achando que estava me punindo,
não percebeu que estava me libertando.

Do seu egoísmo.
Do seu jogo.
Do peso de tentar te provar que eu valia a pena.

Porque quem vale a pena,
não precisa se explicar.

Agora sou só eu.
E meus dois motivos.

Não sou exemplo.
Sou sobrevivente.
Mas olha só: tô vivo.

E se amanhã me faltar o chão de novo,
eles estarão lá.
Com um desenho,
com um "te amo",
com uma bagunça no quarto
e uma esperança no peito.

Então pode rir, pode sumir, pode dizer o que quiser de mim…

Mas não tenta voltar.

Aqui em casa,
a porta não fecha com estrondo.
Ela fecha com paz.

Não Precisa Me Amar

Não precisa me amar.

Não precisa me agradecer.
Nem voltar.
Nem explicar.
Só…
não estraga o que sobrou de mim.

Porque eu fiquei.
Fiquei no meio do incêndio
abraçado aos escombros,
tentando salvar os desenhos
e os cadernos
das suas promessas queimadas.

Você fugiu do que criou.
E ainda teve coragem de dizer que era amor.
Mas amor…
Amor não grita, não omite, não mente de olhos secos.
Amor não pisa nos filhos pra alcançar o próximo desejo.

Você quis um mundo sem regras,
sem rotina, sem berros de criança.
E eu virei o chato, o errado, o "homem difícil de amar".
Mas quem deu banho?
Quem esquentou comida?
Quem ficou sem dormir com febre e medo?

Foi o vilão que você pintou nas suas histórias.

Hoje, não dói mais como antes.
Hoje, seu nome não tem eco.
Hoje, eu só lembro quando perguntam
se foi culpa dele.
Ou quando tentam te defender
mesmo sem saber por quê.

Ele ainda te espera.
Eu não.

Porque eu entendi:
Tem gente que larga o próprio sangue
pra não sujar a própria consciência.

Mas eu?
Eu fiquei.
Com a pia cheia, com a conta vazia,
com os braços sempre abertos.
Com um colo onde eles sempre couberam,
mesmo quando meu peito estava quebrado demais.

Não precisa me amar.
Nem voltar.
Nem pedir perdão.
Só não atrapalha.

Porque agora,
eu e os meus dois milagres…
vamos seguir.

E a gente vai ser feliz
sem precisar esquecer que você foi embora.

Eu Fiquei

Ela saiu.

Fechou a porta sem nem olhar pra trás.
Levou tudo.
As roupas, os planos, os beijos que prometeu dar no futuro.
Levou até o cheiro dela da casa.
Mas esqueceu uma coisa…
Os filhos.
E eu fiquei.

Fiquei com a dor que ela largou no berço.
Fiquei com o silêncio do quarto sem boa noite.
Com os brinquedos espalhados esperando alguém que nunca volta.

Eu fiquei.

Fiquei pra ensinar a amarrar o cadarço,
mesmo quando meu mundo desamarrava todo dia.
Fiquei pra ouvir dizer “pai, eu tô com medo”,
mesmo quando o medo já tinha me comido por dentro inteiro.

Fiquei quando me chamaram de fraco, de louco, de exagerado.
Fiquei quando ninguém estendeu a mão.
Fiquei quando chorei sozinho no banheiro,
e quando escondi as lágrimas num “tô bem”.

Fiquei quando tudo dizia pra ir.
Quando o coração gritava “acaba com isso, some, desiste”.
Fiquei porque se eu fosse… quem ia ficar por eles?

Ela quis sentir o mundo,
mas esqueceu que o mundo também sente.
E quando o mundo doeu…
ela não tinha pra onde voltar.
Não sobrou nem o colo que ela queimou quando mentiu.
Nem o lar que ela trocou por aventura.

Mas eu…
eu tinha dois motivos pequenos demais pra entender,
mas grandes o suficiente pra me manter de pé.
Eles.

Hoje, quando vejo o João dormindo tranquilo,
ou a Gabi me chamando de herói…
entendo tudo.

Não foi covardia dela.
Foi coragem minha.
Porque ela fugiu…
mas eu fiquei.

E ficar quando todo mundo vai embora…
é o maior ato de amor que existe.

Pai com as Mãos Vazias

Um dia, ele acordou cedo.

Como sempre fez.
Calçou o medo no pé e vestiu o silêncio no peito.
Fez café, mesmo sem fome.
A casa ainda dormia…
menos ele.

Na mesa, dois pratos que nunca estiveram cheios o suficiente.
Um era do filho, que às vezes chorava no banho,
porque não queria que ninguém ouvisse.
O outro, da filha, que um dia perguntou:
“Pai, por que a mamãe não olha mais pra mim como antes?”

Ele não respondeu.
Não era por falta de palavras,
era por excesso de dor.

Ele sabia.
Sabia de cada abandono escondido no sorriso dela.
Sabia dos barulhos à noite,
enquanto o menino apertava a coberta,
procurando proteção onde só havia paredes frias.

Sabia do silêncio na escola,
dos desenhos mudos,
dos olhos fundos.

E mesmo assim,
mesmo com o coração esfarelando por dentro,
ele calava.

Não chorava mais.
Já tinha feito isso escondido tempo demais.
Chorar era luxo.
E ele não podia se dar a isso.

Ele foi julgado por tentar amar.
Acusado de dar demais aos filhos,
quando deveria dar tudo a ela.
Ela…
a que dizia que os filhos eram fardos
enquanto buscava colo em outros braços
que nunca seriam pais.

Ele perdeu tudo.
A cama, a casa, a confiança.
Ficou com a culpa.
Essa, ninguém quis dividir.

Mas os filhos…
ah, os filhos.

Eles olham pra ele como se ele ainda fosse inteiro,
mesmo sabendo que ele tá feito caco por dentro.
Eles sorriem pra ele
como se o mundo fosse um lugar seguro,
porque sabem que, com ele, é.

E quando a filha diz
“Pai, você é meu herói”,
ele disfarça a lágrima.
Não porque tem vergonha…
Mas porque doeu lembrar
que pra ser herói,
ele teve que morrer por dentro tantas vezes
e ninguém percebeu.

Hoje ele segue.
Com as mãos vazias de quem deu tudo,
mas com os olhos cheios da única certeza que importa:

Eles estão vivos por minha causa.
Eles ainda sonham por minha causa.
Eles ainda chamam por mim…
e por eles,
eu vou continuar vivendo.
Mesmo que ninguém viva por mim.

🖤

No Escuro, Eu Brilhei

Eu não entendo.

Juro por Deus, eu não entendo.
Como se troca o sangue do sangue
por noites vazias e corpos quentes de momento?

Como se fecha os olhos pro choro do filho,
só pra abrir os braços pra outro alguém?
Como se escolhe o prazer passageiro
em vez do amor que grita e que vem?

Eu fui pai escondido.
Sim, escondido.
Como se amar meu filho fosse crime.
Como se dar carinho demais à minha filha
fosse um risco de ser julgado, punido.

Tive que ser o vilão na história dela
pra poder ser o herói da história deles.
Fui o monstro em sussurros,
enquanto limpava os joelhos sujos
dos meus filhos caídos nos becos dos medos.

Trabalhei doente.
Com dor nas costas, com dor no peito.
Doava tudo que podia.
E o pouco que me sobrava, eu dividia.
Pra eles, nunca faltou amor.
Pra mim… sempre faltou um lugar pra existir.

A mãe que troca o filho por aventuras…
Essa eu nunca vou entender.
Mas eu não escrevo isso com raiva.
Eu escrevo com pena, com pesar.
Porque eu vi o olhar vazio de quem acha que é feliz,
enquanto a criança do lado
chora no silêncio antes de dormir.

E quando meu filho me diz "pai, tô com medo",
e inventa um código secreto só pra eu resgatar ele da mãe…
Quando minha filha diz "você foi forte, pai",
eu entendo que o mundo tentou me quebrar.
Mas eu fiquei de pé, mesmo sem ninguém ver.

Fui crucificado por contas pagas,
chamado de bêbado por não ter paz.
Drogado? Impossível.
Quem é que tem tempo pra vício
quando a vida é só luta atrás de luta e mais um gás?

Me levaram tudo.
Me deixaram sem fé, sem chão.
Mas Deus olhou pra mim,
com as mãos calejadas do meu esforço,
e disse: "vai viver, meu filho, sai dessa prisão."

Eu saí com o peito rasgado,
com a alma em carne viva.
Mas mesmo sangrando,
eu juntei palavra por palavra, verso por verso,
e escrevi poesia com cada lágrima esquecida.

Hoje, eu tenho meus filhos.
E só isso já basta.
Mas também sonho.
Sonho com alguém que chegue sem cobrar espaço.
Que me abrace como lar.
Que se deite como paz.
Que veja neles não rivais, mas parte do que ela vai amar.

Porque eu sou um homem inteiro.
Mesmo quando me fizeram em pedaços.
Eu sou abrigo, sou teto, sou chão firme.
Mesmo quando me negaram espaço.

E se mais alguém chegar…
que venha pra somar, não pra sugar.
Porque meu coração é forte,
mas já aprendeu a trancar.

Hoje, eu brilho no escuro.
Eu, que fui a sombra da casa,
sou a luz dos meus filhos.
E por eles,
eu sou o sol depois da chuva.
Eu sou o poema depois da guerra.

E por mais que a vida tente me apagar,
meus filhos sempre me reacendem.
E cada vez que eles me chamam de pai,
eu sei:
o mundo não me venceu.

🖤

Os Ossos da Minha Alma

Já me arrancaram tudo.

O coração, a casa, o chão.
Deixaram só os ossos.
E mesmo assim, eu fiquei de pé.

Me deram o silêncio como resposta,
e eu escrevi canções com ele.
Me deram o abandono como abraço,
e eu abracei meus filhos com mais força.

Já fui o homem que mendiga afeto.
Hoje sou o que planta presença.
Já fui o tolo que salvava náufragos
em mares que queriam me afogar.

Mas aprendi a nadar sem ajuda.
A andar sem mapa.
A viver sem plateia.

E o que me restou, você pergunta?

Eu.
Inteiro.
Depois de ter sido quebrado mil vezes.
Com a alma costurada por Deus
e os olhos atentos pra não amar errado de novo.

Hoje, minha mesa tem paz.
Meus filhos têm herança:
meu nome limpo, meu suor, meu abraço.

Se um novo amor vier,
vai saber onde pisa.
Vai entender que meu coração não é doente —
é valente.
E quem vier, vai somar.
Ou nem vem.

Porque a pior parte já passou.
E eu sobrevivi ao inferno
sem perder a luz.

Agora, o que me guia
é a chama que ninguém pode apagar:
o propósito.
A missão.
O legado.

E quem não souber amar,
que me veja de longe.
Porque aqui, só entra quem vem pra ficar.
E pra somar.

Eu Morri Antes de Morrer

Eu morri antes de morrer.

E ninguém trouxe flores.
Ninguém chorou.
Ninguém notou.

Morria todo dia, um pouco.
Quando vi meu filho confuso,
me olhando como quem pergunta:
“Cadê aquele pai que sorria?”

Morria quando chamavam de lar
um lugar onde eu era hóspede.
Onde eu doava meu corpo, minha grana, minha alma,
e me entregavam silêncio.

Morria quando a mulher que eu amava
abria a porta pra outro homem,
mas deixava a janela aberta pra mim,
só pra garantir que eu não fosse embora por completo.

Morria quando fingia que tava tudo bem.
Que a traição foi só distração.
Que o abandono foi só fase.
Que o amor ia voltar se eu fosse melhor, mais forte, mais calado.

Eu fui o cara que vendeu os videogames
achando que o preço da família era alto.
Eu fui o cara que dormia no chão
enquanto ela se maquiava pra sair.
E eu dizia "tudo bem",
como se minha dor fosse um detalhe.

Eu doei meus domingos.
Minhas roupas.
Minha saúde.
Doava sorriso quando por dentro só tinha nó.

Fui usado, esquecido, debochado,
até pelo espelho.
E mesmo assim, amanhecia.
Mesmo assim, colocava arroz na panela,
e esperança no peito.

Mas você quer saber quando eu morri de verdade?

Quando eu percebi que ninguém voltava.
Nem ela.
Nem os amigos.
Nem os “eu te amo” que eu disse alto e ninguém devolveu.

Morria mais um pouco cada vez que eu dizia "vai passar",
e só piorava.
Cada vez que alguém me dizia "você é forte",
quando tudo que eu queria era colo.

Hoje, eu sou o que sobrou.
Mas sobrou justo o que era indestrutível:
meu amor pelos meus filhos.
Meu dom.
Minha fé.

E quando alguém me vê sorrindo agora
e diz que estou bem,
eu só abaixo a cabeça e penso:
“Se você soubesse quantos caixões eu enterrei dentro de mim.”

Aquela Que Me Enterrou Vivo

Ela me chamava de amor

com a boca que sorria pra mim
e mordia o ombro de outra.

Ela deitava comigo
mas sonhava com a outra.
E eu acordava cedo
pra fazer café pros três —
ela, a outra e o fantasma do que eu já fui.

Eu dava o mundo.
E ela queria a lua...
mas não a minha,
a de quem chegou depois,
com perfume barato e promessas fáceis.

A pior parte não foi a traição.
Foi ela fingir que ainda era minha
enquanto já era delas.
Foi me olhar nos olhos e pedir paciência,
como se me matar devagar fosse um favor.

Me usou como alicerce pra construir um lar
com outra mulher dentro.
Sim, mulher.
E eu nem sabia
que dava pra perder pra alguém
que nem jogava o mesmo jogo.

Mas eu perdi.
E sabe o pior?
Não foi pra ela. Foi pra mim.

Porque eu soube.
Eu senti.
E fiquei.

Fiquei por medo.
Fiquei por João.
Fiquei por Gabi.
Fiquei pra ver se ela voltava a ser ela.
Mas ela nunca voltou.
Porque nunca foi.

Ela era ausência maquiada.
Era carinho com validade.
Era o "te amo" que escorregava na língua
só pra justificar a próxima ausência.

E quando finalmente fui embora,
não foi ela que me perdeu.

Fui eu que me achei.

Hoje eu sou o silêncio que ela não aguenta.
A paz que ela não consegue alcançar.
E mesmo que ela volte,
não tem mais porta.
Não tem mais chão.

Porque o homem que morava naquela dor,
já se mudou.

O Velório Que Ninguém Veio

Morreu ali.

Num domingo qualquer.
Com a roupa do dia anterior
e a cabeça cheia de planos
que ninguém quis ouvir.

Ninguém levou flores.
Ninguém fez oração.
O corpo ficou em pé, trabalhando,
cuidando dos filhos,
abraçando quem não soube abraçar ele de volta.

Mas por dentro,
já tinha morrido.

Foi um enterro sem despedida.
Sem caixão.
Só mais uma dor deixada no canto do peito,
como um livro lido até a última página
que ninguém quer reler.

Morreu o menino que sonhava em ser pai,
o homem que achava que amar era suficiente,
o burro que acreditou que bastava ser bom
pra não ser traído.

Enterraram ele debaixo dos “eu te amo” vazios,
dos pedidos de paciência,
das promessas feitas no calor da bebida.

E ele aceitou.

Aceitou ser tapa-buraco,
lar temporário,
coração de aluguel.

Mas ninguém percebeu
o dia em que ele parou de sorrir de verdade.
Nem quando ele gravava vídeos,
nem quando ele fazia piada,
nem quando dizia "tá tudo bem".

Porque não tava.
Não tá.

Só ele viu o velório.
Só ele chorou.
Só ele cavou a própria cova
e depois teve que sair dela,
sozinho.

Hoje, ninguém visita aquele túmulo.
Só o eco dos erros.
Só as promessas que não voltaram.

E ele?
Ele vive, mas não respira do mesmo jeito.
Ele ama, mas com máscara de oxigênio.
Ele sonha, mas com as portas trancadas.

Ele virou lenda.
Virou rocha.
Virou o tipo de homem que não precisa mais de ninguém
pra seguir em frente.

Porque quem morre e volta,
não quer mais colo.

Quer céu.

O que eu tive... e nunca tive

Eu quase tive.

Quase tive uma família
daquelas que sentam pra comer
sem medo do silêncio da mesa.
Quase tive uma mulher que me chamava de amor
sem esconder o celular.

Quase tive domingos de paz,
e noites sem precisar adormecer fingindo estar cansado.
Quase tive um lar.
Quase fui prioridade.
Quase fui resposta rápida.
Quase fui o último pensamento antes de dormir.

Mas fui plano B.
Fui companhia de emergência.
Fui o que fazia ela esquecer que amava outro.
Fui pausa.
Nunca play.

Eu quase tive filhos crescendo vendo o amor de verdade,
mas tive que ensinar o João a se proteger com códigos,
porque o mundo que deram pra ele
tava sujo demais pra deixar ele sozinho.

E a Gabi...
Ah, a Gabi merecia me ver sorrindo.
Não só sobrevivendo.

Eu quase me amei.

Quase acreditei que era o bastante.
Quase entendi que o problema nunca foi minha entrega,
mas a mão podre que pegava tudo e jogava fora
como se eu fosse descartável.

E eu?
Eu fiquei.
Sempre fiquei.
Com o peito cheio de cortes,
cobrindo com fita isolante
só pra ninguém perceber que tava sangrando.

Fui o cara que escreveu poemas
pra quem não sabia ler sentimento.
Que vendeu os videogames,
os sonhos,
a liberdade —
pra ganhar um "não sei o que quero da vida"
como resposta.

E eu fiquei.

Até não sobrar mais nada,
nem eu.

Hoje, me pergunto se valeu.

Se valeu ter sido homem demais
num mundo onde isso é fraqueza.

Se valeu morrer por inteiro
por quem só sabia fazer parte
da destruição.

Mas aí eu lembro do João.
Da Gabi.
Do silêncio que agora é paz.
Do prato feito com gosto,
da casa limpa,
do peito leve.

E entendo:
o que eu quase tive, me fez ter tudo o que eu precisava.

Mas doeu.
Ainda dói às vezes.
Principalmente à noite,
quando eu percebo
que ninguém nunca voltou pra buscar o homem que ficou pra trás
esperando por um amor…
que só ele enxergava.

Do Lado de Cá da Dor

Eu já caí no abismo de gente vazia,

dei abraço em faca e beijo em mentira,
e achei que era amor.

Já gritei no escuro pedindo um sinal,
pra acordar num mundo menos desigual.
Mas o mundo respondeu com silêncio.

E quando eu quis parar,
desligar,
sumir,
foi a voz do meu filho que me trouxe de volta.
Foi o olhar da minha filha que me chamou de herói,
sem saber que eu só queria ser humano.

Eu sangrei pra ser abrigo,
calejei o coração pra ser colo.
E hoje eu entendo:
o que não me matou, me forjou.

Porque o amor que eu procurei em outros corpos,
já morava no sorriso deles.
O sonho que me abandonaram,
se reconstruiu com as mãozinhas pequenas
que me chamam de pai.

A dor não me possui mais.
Ela me serve.
Ela me molda.
Ela me ensina.

E se ainda escorre lágrima,
não é por quem me deixou,
é por quem ficou.

E por eles —
meu suor,
minha guerra,
meu recomeço.

Porque do lado de cá da dor...
Eu sou casa.
Eu sou chão.
Eu sou pai.

Filhos Não Sangram

Me disseram que amor é flor,

mas comigo sempre veio com espinho.

Me disseram que o mundo gira,
mas pareceu me girar no moinho.

Me deram promessas de abrigo,
e construíram só tempestade.
Me fizeram boneco no jogo,
mas esqueceram:
eu sou pai de verdade.

Me tiraram tudo que eu era,
me disseram que era o fim.
Mas esqueceram que eu nasci de novo
quando ouvi o primeiro "papai" vindo pra mim.

Não é clichê.
É sal, lágrima, fome e suor.
É fazer do pouco, um banquete,
é dormir no chão com orgulho e dizer:
"aqui, ninguém sente dor."

Porque filho não sangra.
Filho não pode doer.
Se for preciso, eu arranco a ferida do peito
pra que ele aprenda a viver.

Filho não sofre por erro de adulto,
filho não paga o que pai carregou.
Se eu chorei, calei ou morri por dentro,
foi só pra ele nunca saber o que a dor causou.

Eles — meu recomeço,
meu suspiro,
meu teto.

Enquanto o mundo me quebra,
eles me juntam em pedaço e afeto.

Então, se um dia perguntarem:
"Por que você ainda insiste?"
Respondo com o coração em carne viva:
"Porque eu sou pai. E ser pai é ser raiz."

E se o mundo quiser bater de novo,
que venha com tudo.

Mas saiba:
hoje eu apanho de pé.
E com meu filho no colo,
não caio mais nunca.

terça-feira, 8 de julho de 2025

Mesmo que doa, eu fico

 É injusto, eu sei.

Chorar sozinho, se abraçar no escuro do próprio quarto, se segurar pra não explodir.

Falar com o espelho porque mais ninguém escuta.

E mesmo assim… continuar.


Eu sei o que é repetir pra si mesmo:

"Deus tá comigo. Eu me amo. Eu não posso me abandonar."

E mesmo com fé, com força, com tudo o que restou…

Ainda dói.


Às vezes, eu penso que agora vai.

Agora a vida vai sorrir.

Mas vem mais um tropeço, mais uma decepção, mais um silêncio onde eu esperava amor.

E eu só queria esquecer.

Caminhar.

Escrever.

Postar.


O mundo aqui dentro tá explodindo de ideias.

Mas a alma… tá exausta.


Mesmo assim…

Eu lembro.


Lembro dos dias em que tudo era prisão.

Em que amar me custava a paz.

E agora que estou livre…

Por que a pressa?

Por que essa dor de ver ela com alguém e eu não?


É orgulho? É carência?

Ou é só aquele eco da alma que diz:

"Eu também queria ser amado."


Mas eu entendi…

O amor da minha vida não era quem eu pensava.

Porque quem ama de verdade não foge. Não abandona. Não mente. Não trai.


Hoje, eu caminho por mim.

E quando doer demais,

Eu vou pra rua.

Eu vou suar o luto.

Eu vou transformar dor em músculo.

Solidão em foco.

E peso em superação.


Faltam só 8kg pra eu sair dos 100.

Logo eu, que já estive em 125.

Cada quilo ficou com uma lágrima no chão.

Mas cada passo agora é um "eu consegui" batendo no peito.


E quando eu entrar na academia,

não vai ser só o corpo que vai mudar.


Vai ser a minha vida.

terça-feira, 1 de julho de 2025

Eu Só Tinha Um Coração"

Um dia, andando pelas ruas, tentando me encontrar,

Ouvi uma voz…
A sua voz.
E por um instante, ela conseguiu me acalmar.

Eu olhava pras minhas feridas, tentando me entender,
Mas cruzei o olhar com o seu…
E, por segundos, elas pareceram desaparecer.

Eu andei perdido, desistindo de viver,
Mas senti o seu toque,
E, por um momento, até a dor resolveu adormecer.

Eu cansei das mentiras.
Não conseguia mais me entregar.
Mas a sua presença fez parecer que o amor ainda podia respirar.

E quando eu me perguntava:
"O que eu fiz pra merecer ser feliz?"
Eu vi as suas asas —
Eram falsas.
E viraram tudo aquilo que eu sempre temi.

Você me deixou tão quebrado,
Que eu já nem conseguia mais entender…
Como alguém tão perfeito por fora
Carregava o inferno dentro de si, sem se arrepender.

Então eu orei.
Me entreguei.
Mas eu só tinha um coração.
E um coração sozinho…
Não compra um amor, não segura uma paixão.

Eu aceitei o caminho que sobrou e tentei me reconstruir.
Mas a cada dia, o peso do seu pecado
Faz o meu mundo inteiro ruir.

Hoje, eu já aceitei a dor.
E jurei:
Nunca mais me entregar.
Porque eu sei que aquilo que realmente me faz feliz…
Deus ainda vai me confiar.

E quando doer — porque vai doer —
E quando você perceber tudo o que perdeu…
Vai implorar pra voltar.
Mas não me procura.
Eu não estou mais aqui pra você.
Nem por você.

terça-feira, 17 de junho de 2025

Dona de Tudo

 Ela não sabe.

Mas tudo que escrevo
tem o nome dela escondido entre as linhas.
Mesmo quando falo de amor por outra,
é ela que meu coração soletra por dentro.

As músicas que eu componho,
as palavras que eu falo,
os silêncios que eu carrego…
são dela.
Cada verso, cada vírgula.
Cada suspiro de madrugada
é um grito calado chamando por ela.

Eu acordo com ela na lembrança,
levanto com ela nos ombros,
respiro com ela nos pulmões.
Ela mora no fundo do meu olhar
quando vejo minha filha sorrir,
quando abraço meu filho em silêncio.
Porque eu sei —
nosso tempo tinha limite.
A vida me levou pra outros caminhos,
mas nenhum deles me tirou dela.

Até o amor que eu dou pras pessoas
é o amor que eu queria ter dado pra ela.
O beijo que ofereço em outra boca
é o beijo que guardei, em vão, pra ela.
Ela é o que ficou em mim
depois que o mundo desabou.

Ela é dona da minha arte,
dona da minha dor,
dona da ternura que ainda me resta.
Ela é dona do que eu fui,
do que eu sou,
e até do que nunca vou conseguir ser.

E se um dia houver um depois…
um céu, uma eternidade,
uma chance de reencontro —
que me deixem ver só uma pessoa:
ela.
Porque de tudo que perdi,
de tudo que amei,
de tudo que vivi…
ela é a única que, sem saber,
me fez inteiro.

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Poema de quem morreu e nasceu de novo - Do dia 12 ao dia 13

 Dia 12 de março, o mundo parou.

Uma surpresa cortou meu peito em silêncio.
Minha vida, que já andava no limite,
simplesmente... acabou.

Dia 13, eu me vi esvaziado,
pegando minhas coisas,
levando embora o pouco que sobrou de mim.
Foi o pior dia.
O tipo de dia que a alma grita e ninguém ouve.

Mas Deus ouviu.
Mesmo sem eu saber, Ele já estava escrevendo a resposta.
Enquanto eu caía,
Ele preparava o colo.

E então, três meses depois,
no mesmo dia 12, mas agora de junho,
veio outra surpresa.
Só que dessa vez, ela me devolveu o fôlego.
Me fez sorrir sem perceber,
falar com vontade,
viver com desejo.

E hoje, no dia 13,
eu não me despeço mais da vida.
Hoje eu a celebro.
Porque pela primeira vez em muito tempo,
ela me sorriu de volta.

Mas não, eu não vou postar isso em rede nenhuma.
Não por medo,
mas por proteção.
O que eu estou vivendo não cabe em legenda.
Não precisa de curtida.
Precisa de silêncio.
De cuidado.
De zelo.

Então, se você me ver postando copos, pratos,
flores, músicas...
saiba que no fundo,
é ela quem está lá.
Em tudo.
No pouco.
No tudo.

Hoje, eu me escolho.
Hoje, eu escolho não mostrar,
porque o que é real, a gente vive — não exibe.

E se Deus é por nós...
ah, meu irmão,
quem será contra?

sexta-feira, 6 de junho de 2025

A Peça Que Faltava

 Eu queria te agradecer.

Eu estava num lugar tão escuro, que não enxergava mais nada à minha frente.
Achei que ali seria o fim da minha história.
Mas então... eu vi uma luz se aproximando.
No começo, confesso, eu tive medo.
Mas ela chegou devagar, iluminou tudo ao redor —
e, no meio da bagunça, me devolveu a vida.

Essa luz era você.

Você me deu forças pra me reencontrar.
Me devolveu o sorriso, a paz, e a vontade de continuar.
Por isso, eu te agradeço — com o coração inteiro.

Antes de você, eu estava perdido.
Com você, eu voltei a ser eu.

Obrigado por tudo.
Obrigado por me salvar.

Eu Era Refém e Não Sabia

 Por muito tempo, eu achei que estava em um lugar seguro.

A casa era limpa, o filho saudável, a geladeira cheia, o Wi-Fi funcionando.
Tudo no lugar. Tudo... como ela queria.

Eu me lembro da vez em que pensei em visitar minha mãe. Era o aniversário dela. Já estava até com a sacola pronta, presente embrulhado, ansioso pra vê-la sorrir.
Mas ela achou melhor não. Disse que minha presença podia causar confusão. Que minha mãe tinha energias estranhas.
— Melhor deixar pra outra hora — ela disse.
Nunca teve outra hora.

No mês seguinte, meus primos fizeram uma festa. Eu ri quando vi os vídeos depois, escondido no banheiro. Mas no dia…
Ela achou melhor eu não ir.
— Seus primos têm umas ideias estranhas, vão te encher a cabeça — disse.
E eu fiquei.

Comecei a reparar que os convites foram parando. Os amigos sumiram.
Mas ela dizia:
— Você tem tudo aqui. Eu, seu filho, nossa casa. O que mais você quer?

E eu me convencia. Porque amar também é ceder, né?
Amar é querer agradar.
Amar é entender que o outro só quer te proteger.
Ela só queria o melhor pra mim.
Era o que eu repetia toda noite, enquanto bebia sozinho, olhando a rua pela fresta da cortina.

Um dia, eu descobri. Não foi só uma mensagem. Foi um mundo inteiro escondido atrás de um sorriso que eu jurava ser verdadeiro.
A traição veio como uma faca cega: não cortou de uma vez, foi rasgando devagar.
E eu caí.

Caí tão fundo que pensei que ia morrer.

Mas foi ali que eu acordei.

No começo, só uma sensação estranha nos pulsos. Um incômodo.
Fui ver no espelho, e havia marcas.
Marcas finas, circulares, vermelhas — como se eu tivesse usado algemas por anos.
Nos tornozelos, as mesmas marcas.
No peito, nas costas, pequenos traços de uma tortura que eu nunca percebi sofrer.

Fiquei dias tentando entender. Sem dormir. Sem comer.
Como eu não vi?

Aos poucos, comecei a lembrar das vezes em que quis sair… e não saí.
Das vezes em que quis dizer “não”… e me calei.
Das vezes em que chorei no banho, e me culpei por estar triste.
E entendi.

Eu não estava casado.
Eu estava preso.
E ela era minha cela dourada, meu carcereiro sorridente.

Hoje, eu ando por aí com medo.
Medo de ser livre.
Medo de não saber mais escolher.
De me sentar num bar com amigos e não saber o que dizer.
De visitar minha mãe e não saber como abraçá-la.

Mas, mesmo com o medo, eu tô indo. Um passo por dia.
Porque agora eu vejo que liberdade…
é quando você pode amar sem perder a si mesmo.
É quando você pode sair — e ainda assim querer voltar.
É quando o seu “não” é respeitado… sem que precise virar guerra.

Eu era refém.
E não sabia.

Hoje, sou livre.
E tô aprendendo, devagarinho, a ser feliz.