Eu não entendo.
Juro por Deus, eu não entendo.
Como se troca o sangue do sangue
por noites vazias e corpos quentes de momento?
Como se fecha os olhos pro choro do filho,
só pra abrir os braços pra outro alguém?
Como se escolhe o prazer passageiro
em vez do amor que grita e que vem?
Eu fui pai escondido.
Sim, escondido.
Como se amar meu filho fosse crime.
Como se dar carinho demais à minha filha
fosse um risco de ser julgado, punido.
Tive que ser o vilão na história dela
pra poder ser o herói da história deles.
Fui o monstro em sussurros,
enquanto limpava os joelhos sujos
dos meus filhos caídos nos becos dos medos.
Trabalhei doente.
Com dor nas costas, com dor no peito.
Doava tudo que podia.
E o pouco que me sobrava, eu dividia.
Pra eles, nunca faltou amor.
Pra mim… sempre faltou um lugar pra existir.
A mãe que troca o filho por aventuras…
Essa eu nunca vou entender.
Mas eu não escrevo isso com raiva.
Eu escrevo com pena, com pesar.
Porque eu vi o olhar vazio de quem acha que é feliz,
enquanto a criança do lado
chora no silêncio antes de dormir.
E quando meu filho me diz "pai, tô com medo",
e inventa um código secreto só pra eu resgatar ele da mãe…
Quando minha filha diz "você foi forte, pai",
eu entendo que o mundo tentou me quebrar.
Mas eu fiquei de pé, mesmo sem ninguém ver.
Fui crucificado por contas pagas,
chamado de bêbado por não ter paz.
Drogado? Impossível.
Quem é que tem tempo pra vício
quando a vida é só luta atrás de luta e mais um gás?
Me levaram tudo.
Me deixaram sem fé, sem chão.
Mas Deus olhou pra mim,
com as mãos calejadas do meu esforço,
e disse: "vai viver, meu filho, sai dessa prisão."
Eu saí com o peito rasgado,
com a alma em carne viva.
Mas mesmo sangrando,
eu juntei palavra por palavra, verso por verso,
e escrevi poesia com cada lágrima esquecida.
Hoje, eu tenho meus filhos.
E só isso já basta.
Mas também sonho.
Sonho com alguém que chegue sem cobrar espaço.
Que me abrace como lar.
Que se deite como paz.
Que veja neles não rivais, mas parte do que ela vai amar.
Porque eu sou um homem inteiro.
Mesmo quando me fizeram em pedaços.
Eu sou abrigo, sou teto, sou chão firme.
Mesmo quando me negaram espaço.
E se mais alguém chegar…
que venha pra somar, não pra sugar.
Porque meu coração é forte,
mas já aprendeu a trancar.
Hoje, eu brilho no escuro.
Eu, que fui a sombra da casa,
sou a luz dos meus filhos.
E por eles,
eu sou o sol depois da chuva.
Eu sou o poema depois da guerra.
E por mais que a vida tente me apagar,
meus filhos sempre me reacendem.
E cada vez que eles me chamam de pai,
eu sei:
o mundo não me venceu.
🖤