terça-feira, 21 de outubro de 2025

A última pena do vilão

 Você é a heroína — nascida da lama, da perda, do abuso.

Eu sou o vilão — forjado pelo amor, pela superação, pelo perdão.

Quando te achei, perdida entre frestas de mundo — sem casa, sem emprego, sem diploma — não veio amor: veio pena. Vi em você uma fortaleza ferida, leal, merecedora de uma vida de verdade. Sangrei por dias para que a dor ficasse só em mim; neguei o meu diploma para te dar o teu; ofereci o emprego mais tranquilo, a casa mais confortável. Dei a minha lealdade de vilão — aquela que firma pacto com o caos para proteger.

Você dizia que havia dois de mim: paz e caos. Você conhecia os dois; nunca escondi nada. Só que, quando me vi no seu lugar — sem carta, sem renda, sem abrigo — descobri o seu superpoder: a habilidade de fingir. Você vestia máscaras de esposa, de leal, de amor. E por trás daquele traje, seu superpoder era traição, mentira e deslealdade.

No início senti raiva; como todo vilão, quis me vingar. Quis devolver a dor que guardei por você durante anos. Mas a cada dia longe de você, minhas forças voltaram. Você drenava minha vida com abuso emocional; seus poderes quase me venceram. Deus me avisou: “Ela não dura até fevereiro.” E teve misericórdia do vilão que inventaram sobre mim.

Hoje eu te vejo de longe, ainda usando esses poderes de engano. E o sentimento que resta não é ódio: é pena. Com essa pena eu encerro nossa batalha; morre a rivalidade nascida de décadas de mentira. Nada que venha de você mais me atinge — resta somente pena: pena de te ver viver uma vida feita de mentiras, pena de te ver negar quem é, pena de te ver perder o que sempre amou.

Você vai gastar seus truques até que se esgotem. Quando ele for embora, sentirá o peso de tanto engano. E dali, talvez — só talvez — venha a pena que te devolve o desprezo e a distância que você merece. Eu não tenho mais interesse em sofrer por sua queda.

Que Deus te dê, se puder, uma chance redentora — longe de mim.
Agora conviva com a sua dor. Boa sorte.

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