Tinha um cara que morava numa casinha velha, caída, quase um suspiro antes de desmoronar. O telhado pingava quando chovia, a porta rangia como se lamentasse, e as paredes eram tão finas que o vento parecia atravessar como fantasma.
Só que aquele cara… ele já tinha desistido da vida.
Pra ele, tudo tinha perdido o sentido.
Uma noite, ele decidiu: “Acabou.”
Ele juntou umas cordas, umas garrafas, uns remédios — aquelas coisas que a mente empurrada pelo sofrimento inventa pra tentar sair da dor.
Só que toda vez que ele tentava, algo na casa… impedia.
A corda arrebentava.
O remédio derramava.
O copo caía sozinho da mão dele.
O teto estalava tão forte que parecia grito mandando ele parar.
Ele achou que era azar.
Depois achou que era loucura.
Mas, no fundo, parecia que aquela casa velha — aquela estrutura que mal ficava em pé — não deixava ele ir embora.
Um dia, no auge da raiva, ele gritou pro nada:
— POR QUE VOCÊ NÃO ME DEIXA MORRER?
E o silêncio respondeu.
Mas respondeu num jeito estranho, diferente:
com um estalo suave, como se fosse um carinho nas telhas.
No dia seguinte, ele acordou.
Sem entender.
Sem desejar nada.
Mas vivo.
E pensou: “Beleza. Já que não posso morrer, vou tentar viver.”
E aí uma coisa começou a acontecer.
Ele arrumou um pedacinho da parede.
Depois trocou um tijolo.
Depois consertou um pedaço do telhado.
Depois pintou uma janela.
E conforme a casa ia melhorando… ele também ia.
Tijolo por tijolo.
Passo por passo.
Sem pressa.
Sem grandes discursos.
Um dia, um vizinho passou e disse:
— Cara… sua casa ficou bonita, viu?
E ele respondeu algo que só quem já ouviu a própria alma ranger entende:
— Foi ela que me segurou quando eu estava caindo. Agora eu seguro ela.
A verdade é que aquela casa nunca foi só uma casa.
Foi a parte dele que ainda acreditava.
A parte que gritava mesmo quando ele não ouvia.
A parte que dizia: “Não acabou. Arruma você primeiro. Depois arruma o mundo.”
E, no fim, ele descobriu que não era a casa que não deixava ele morrer…
era a vida chamando por ele o tempo inteiro.
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