quinta-feira, 8 de maio de 2025

O Homem Que Se Desmontou

 Era uma vez um homem feito de peças.

Não peças mecânicas, nem metálicas. Mas partes vivas, frágeis e fortes ao mesmo tempo — pedaços de amor, confiança, sonhos, promessas e fé. Durante muito tempo, ele caminhou inteiro. Alguns dias, com peso nos ombros. Outros, com leveza no peito. Mas ainda assim, inteiro.

Até que a vida, com suas mãos frias e palavras cortantes, começou a desmontá-lo.

Primeiro foi uma de suas mãos — aquela que segurava firme quem ele amava. Partiu-se quando foi solto por alguém que jurou nunca largar. Ele tentou colar. Tentou esconder. Mas a rachadura gritava em silêncio.

Depois foi seu peito. Quebrado quando acreditou demais. Quando amou sem medida e não foi amado da mesma forma. Foi ali que a dor começou a morar.

Ele caiu. Literalmente. E quando bateu no chão, outras partes se soltaram: o sorriso que usava para fingir que estava tudo bem, os olhos que enxergavam esperança mesmo na escuridão, os joelhos que dobravam em oração mesmo sem respostas.

Desmontado, ele ficou.

Por um tempo, ninguém percebeu. Alguns até passaram por ele, o olhar curioso, mas não pararam. Outros disseram: "Seja forte", sem saber que já não havia força alguma dentro.

Mas um dia...
Um dia ele se olhou nos cacos.
E pela primeira vez, não sentiu vergonha.

Ali, no chão, ele começou.
Com dedos feridos, pegou a si mesmo em pedaços.
Com lágrimas, limpou a poeira do que ainda restava.
Com silêncio, ouviu o que seu coração partido tinha a dizer.

Não foi rápido. Não foi bonito.

Algumas peças estavam longe demais.
Outras haviam sido levadas por pessoas que nunca devolveriam.
E certos pedaços... ele sabia: jamais voltariam.

Esses buracos doíam.
Mas ele decidiu que não viveria esperando o que se foi.
Com o tempo, o vazio se moldou.
E onde faltavam partes, o tempo passou com sua argamassa invisível.
Não reconstruiu igual, mas reconstruiu diferente.

Ele seguiu. Não inteiro. Mas verdadeiro.

Cada passo que dava colava uma peça nova.
Às vezes um gesto de amor sincero,
Às vezes o perdão que deu a si mesmo.
Às vezes apenas o silêncio que o fazia respirar.

E mesmo com buracos —
Sim, mesmo com buracos —
Ele encontrou beleza.

E quando olhava para trás, via no caminho alguns pedaços perdidos.
Não com tristeza, mas com honra.
Eram partes que serviram para construir quem ele era.
E mesmo ausentes, ainda o completavam.

Porque não é só o que se tem que nos define.
Mas também o que se sobrevive sem.

E assim, aquele homem que um dia se desmontou,
Se reconstruiu.
Peça por peça.
Dor por dor.
Até que um dia, olhou no espelho
E viu alguém novo.

Não perfeito.
Mas inteiro o suficiente para seguir

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