segunda-feira, 12 de maio de 2025

Carta do Vilão que Sobreviveu

 Disseram que eu era bom demais.

Disseram que meu coração era grande demais.
Disseram que amar tanto assim era bonito.
Até me deixarem sozinho no escuro com esse amor sangrando no peito.

Fui chamado de fraco porque chorei,
de louco porque perdoei,
de burro porque confiei —
quando tudo que eu queria era ter paz.

Mas a paz nunca veio.
Vieram as traições. As mentiras. O desprezo.
Vieram os dias em que eu olhava pro teto e perguntava:
"Deus, por que eu ainda estou aqui?"

Então eu morri.
Mas foi uma morte silenciosa.
Ninguém viu.
Só eu e Deus.

Morri ali, naquele dia em que ela me deixou com o peito cheio de verdades que ela nunca quis ouvir.
Morri quando meu filho sorriu pela última vez sem saber que eu estava em pedaços.
Morri quando minha bondade virou tapete.
Quando meu amor virou arma contra mim.

E foi aí que eu entendi.
Eu não nasci pra ser herói de ninguém.
Nasci pra ser o guardião da minha história.
O vilão dos que tentam me usar,
o pai dos meus filhos,
o dono da minha paz.

Hoje eu escrevo essa carta com a caneta da dor,
mas as linhas são firmes, e a mão não treme mais.
Porque pela primeira vez eu sei quem eu sou.

Eu sou aquele que sobreviveu.
Que passou pelo inferno e voltou com uma oração na boca e um plano no peito.
Não vou mais pedir permissão pra ser feliz.
Não vou mais implorar pra ser visto.

Agora eu amo quem eu quiser.
E quem quiser me amar…
que lute.
Porque eu não sou mais abrigo de tempestade alheia.
Eu sou minha própria muralha.

Sim, eu ainda choro.
Mas choro limpo.
Choro de quem tirou a armadura,
lavou o sangue da alma
e decidiu viver do jeito certo: com dignidade.

A todos os que já foram bons demais, fortes demais, sofredores calados demais…
essa carta é pra vocês.

Se ainda há dor,
ainda há vida.
E se há vida,
há recomeço.

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